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Ricos perdem renda com a crise

Rendimento médio do indivíduo das classes A e B caiu 8,7%, para R$ 2.407. Os mais pobres, por sua vez, foram afetados pelo aumento no desemprego


Em dez meses, a turbulência econômica já provocou mudanças na renda e nos hábitos de consumo dos brasileiros. A classe C, que nos últimos anos se tornou a grande estrela da economia nacional com a ascensão social dos mais pobres, parou de crescer. As classes A e B, por outro lado, foram as que mais perderam renda desde que a crise estourou, em setembro do ano passado.



De janeiro a abril deste ano, a renda média individual das pessoas das classes A e B nas seis principais regiões metropolitanas do país caiu 8,7% em termos reais (descontada a inflação) na comparação com mesmo período do ano passado, segundo estudo do Centro de Pesquisas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O rendimento médio individual entre os mais ricos passou de R$ 2.637 para R$ 2.407.

“As classes A e B perderam muito dinheiro no mercado financeiro, com a queda na bolsa de valores, além de estarem mais vinculadas a atividades que vêm sofrendo mais com a crise, como o setor industrial e o comércio exterior”, explica o economista Marcelo Cortes Neri, responsável pelo estudo. A FGV considera classes A e B as famílias com renda acima de R$ 4.807; classe C aquelas com faturamento entre R$ 1.115 e R$ 4.807; classe D, entre R$ 804 e R$ 1.115; e E, de até R$ 804.



Depois de crescer 35% entre 2003 e setembro de 2008, a participação das classes A e B já caiu 6,8% segundo a FGV, para 14,38% da população em abril. “Ainda assim elas concentram 55% da renda do país”, diz.



Enquanto isso, a classe C, na mesma base de comparação, teve aumento de 3,9% na renda média individual, subindo de R$ 625 para R$ 649. De acordo com Neri, parte desse ganho vem do reajuste do salário mínimo. “É muito comum em famílias de classe média que um dos membros tenha rendimento vinculado a ele”, afirma.



A classe média chegou a levar um tombo no início do ano – com redução de participação no bolo da população brasileira –, mas vem se recuperando. No acumulado entre setembro do ano passado e abril, a classe média está estável, com aumento de 0,8%. No total da população continua a representar a maioria, com 52,72%. “O problema é que a crise interrompe justamente o fluxo de ascensão social, com menos gente da D migrando para a C. Em termos de tamanho, a classe média se mantém em termos de participação porque mais pessoas vão cair da B para C”, afirma.



O estudo da FGV também mostra que já há uma migração de pessoas da classe C para as camadas C e D, que cresceram em tamanho da crise, passando a representar, respectivamente, 13,97% e 18,92% da população.



Segundo o professor Marcio Cruz, do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os extremos da pirâmide – as classes A/B e D/E – ficaram mais vulneráveis na crise. As primeiras porque tiveram perda de renda, com prejuízos em aplicações financeiras. E as últimas porque são as mais atingidas pelo desemprego, principalmente na indústria de transformação.



Mas ricos e pobres reagem de maneira diferente diante das perdas provocadas pela turbulência econômica. “As classes de maior poder aquisitivo têm mais gordura para queimar, portanto não reduzem o consumo imediatamente quando perdem renda. Já os mais pobres são obrigados a cortar gastos, porque não têm poupança”, acrescenta.



Para o consultor em finanças Raphael Cordeiro, a percepção de “perda de patrimônio” entre os mais ricos, no entanto, provoca cautela e adiamento de compras. “O consumo está ligado à confiança no futuro e à sensação de riqueza”.


Fonte: Gazeta do Povo



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