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Roland Garros
O último ato
Em uma espécie de transe coletivo, as mais de 14 mil pessoas que lotaram a quadra Philippe Chatrier pareciam pedir aos deuses que congelassem o tempo. Foram quase duas horas para ficar na história do tênis mundial. Gustavo Kuerten protagonizou uma despedida digna de um tricampeão de Roland Garros.
Com um jogo que fez lembrar os tempos de líder do ranking mundial, o catarinense de 31 anos encantou franceses e brasileiros. Inclusive a Paul-Henri Mathieu, um coadjuvante de luxo numa partida em que o vencedor reverenciou seu oponente, o gigante Gustavo Kuerten, o maior tenista brasileiro de todos os tempos.
- Se pudesse também teria aplaudido - disse o francês, que superou o catarinense em três sets, parciais de 6/3, 6/4 e 6/2.
Na partida que marcou sua despedida do circuito profissional, Guga fez de tudo. Com um sólido jogo de fundo de quadra e um primeiro serviço de campeão, protagonizou algumas jogadas de efeito. Bateu forte de esquerda, de direita, deu largadinhas, paralelas e, por vezes, honrou o adjetivo de "Pablo Picasso das quadras" - eternizado pelo russo Yevgeny Kafelnikov - , colocando a bola onde queria.
E realmente o tenista soltou o braço. Principalmente no saque. Foram nove aces. E o míssil mais veloz atravessou a quadra a 207 km/h em um momento importante. Como fazia nos áureos tempos, Guga dispôs de uma de suas maiores armas quando se viu apertado. O ace salvou um game.
- Hoje joguei além das minhas expectativas. Fiz de tudo um pouco - disse o catarinense.
Além do talento e o sorriso que encantou os franceses, Guga mostrou fair-play. Uma de suas características ao longo de seus mais de 25 anos de tênis. Em uma bola duvidosa, que o fiscal de linha havia dado como fora, Kuerten conferiu a marca e deu o ponto para o rival. Foi aplaudido. Em seguida, Mathieu devolveu a gentileza e fez o mesmo com o tricampeão de Roland Garros. O estádio veio abaixo.
Prestígio em alta com organizadores e atletas
Ao longo de seus 11 anos no circuito mundial, Gustavo Kuerten só fez amigos. Dentro e fora das quadras. Ontem, o norte-americano John McEnroe, ex-número um do mundo, também reverenciou Guga. Foi cumprimentá-lo antes do jogo. Após a partida, depois de receber um troféu que exibe as camadas do saibro de Roland Garros, Kuerten falou sobre o momento.
- Nem lembro o que ele disse, só sei que fiz uma brincadeira com ele. Não podia ser diferente, né? - recordou, com um sorriso maroto, típico do manezinho da Ilha.
Já no vestiário, Guga foi aplaudido por vários tenistas, entre eles o sérvio Novak Djokovic, número dois do mundo.
- A galera me proporcionou mais uma emoção. Não esperava isso.
Apesar de considerar o jogo de ontem como o de encerramento da carreira, o público ainda terá a chance de ver Guga em ação esta semana em Roland Garros. Ele recebeu convite da Federação Francesa de Tênis para disputar o torneio de duplas, ao lado do francês Sebastien Grosjean. Eles vão enfrentar os franceses Nicolas Mahut e Julien Bennetteau, na primeira rodada, ainda sem data definida.
- Eu nem achei que a gente fosse jogar, porque o Grosjean estava machucado e nem jogou a simples. Então acho que nós dois vamos jogar para desfrutar, para ser a cereja do bolo, e para todo mundo que veio aqui me assistir de tão longe poder curtir mais um joguinho - brincou.
Fonte: Diário Catarinense
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